
O circo vai além da tradição e não acontece apenas embaixo da lona e nas pracinhas atrás das igrejas de pequenas cidades do interior.
Muitos dos novos artistas de circo não têm qualquer tradição familiar, acreditava-se que os vários ramos da profissão circense – trapezista, malabarista, palhaço, acrobata, equilibrista – não eram ensinados em cursos e escolas, mas sim passando de pai para filho, de geração para geração, com cada arte sendo ensinada às crianças no próprio circo, que era também sua casa.
Mas os tempos mudaram. As condições de vida acompanharam o desenvolvimento tecnológico entre diferentes expressões das artes performativas. Do mesmo modo que ainda existe o circo itinerante tradicional, a arte circense também passou a ser ensinada em escolas. Devido a uma mudança de valores, muitos circenses colocaram seus filhos para estudar e fazer cursos universitários, o que gerou profissionais que agora administram os circos.
Com isso surgiu um novo movimento que pode ser denominado circo contemporâneo ou circo novo, que tem características inovadoras a adição de técnicas circenses, em conjunto com elementos teatrais, ou seja, os números apresentados têm um fio condutor, temático ou estético, que dá sequência lógica ao espetáculo.
O francês Jean-Michel Guy fomentou parte das mudanças do novo circo. Ele trabalhou por vários anos nas questões relacionadas ao circo, avaliação artística e políticas culturais, e também publicou numerosos estudos sobre cinema, teatro, dança e circo. Em entrevista, Jean-Michel fala sobre sua carreira, trabalhos e a cena atual da arte circense.
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Você é hoje uma grande referência no pensamento sobre o circo contemporâneo, embora não tenha uma formação inicial específica em circo. Fale um pouco da sua vida, do seu currículo e da sua experiência no mundo do circo, de como chegou a esse universo ou como esse universo chegou até você.
Sou sim uma referência no pensamento sobre o circo. Grande? Sei lá! Por que embora não tenha uma formação inicial em circo, sou circense! E talvez artista.
Descobri o circo através de uma pesquisa, que me foi encomendada em 1991, sobre a frequência e a imagem do circo na população francesa. Na época eu estava trabalhando como pesquisador em sociologia no Departement des Etudes (Departamento dos Estudos). Devo confessar que fiquei simplesmente apaixonado pela arte circense, pelos artistas que havia dez anos introduzindo o sangue e o fôlego novo naquela arte fascinante e eterna. Enquanto sociólogo, me interditei durante quatro anos do meu próprio gosto, antes buscando entender e fazer entender as razões sociais que eu discernia neste mundo, e também nos espetáculos.
O meu erro enorme do qual não me arrependo um segundo sequer foi aceitar escrever uma matéria “crítica”, que foi encomendada pela revista Arts de La Piste. Eu atrevi pela primeira vez a procurar entender não somente os motivos e os efeitos de uma obra, como também os motivos e os efeitos do meu próprio gosto! A partir daí tudo tem se encadeado com uma rapidez que nunca mais parou.
Escrevi um monte de matérias que se tornaram livros, que me abriram as portas das escolas de circo onde ando ensinando a análise crítica e foi em uma das escolas, o CNAC, que em 2003 me apaixonei outra vez, desta vez por estudantes apaixonados por mim, e que acabamos fundando La Scabreuse. Logo em seguida me tornei diretor e autor de espetáculos de circo. Outra maneira de encarar a questão seria dizer que sempre fui um artista ou alguém com uma curiosidade tamanha que nunca caberá em papeis demasiadamente fixos.
Como você vê a cena circense atualmente? Onde você acha que estão as grandes potências de inovação no circo hoje?
A cena circense tem se transformado bastante e continua transformando com um ritmo acelerado. A grande novidade vem da globalização que é quase impossível de separar da extensão das redes mundiais. Há cinco anos, numa praça pública de São Luís do Maranhão, encontrei malabaristas amadores já com um nível técnico alto, com certa formação realizada pela internet – sem jamais terem feito aula com um malabarista de verdade! Mas que ainda por cima, e graças à tal rede, já conheciam os mestres europeus, americanos, australianos. Já sabiam tudo! Ou melhor, sabiam quase nada! O malabarismo não pode se limitar a demonstração de um talento. Mas tem que dialogar com as demais artes, com a sociedade onde desencadeia emoções e invoca sentidos do povo.
Não sei de onde vem a inovação. Sei que ela depende de outras áreas, do dinheiro, do reconhecimento público e do poder artístico. O desenvolvimento do circo, ou seja, a inovação é simplesmente impossível sem um investimento. A inovação em arte não é previsível. Porém, ela depende de certas condições. Foi por isso que inventamos na França, em 2002, o Jeunes Talents Cirque (Jovens Talentos do Circo), que se transformou 10 anos depois em Circus Next – uma operação doravante europeia e cuja meta é justamente descobrir os novos artistas de hoje. Claramente é deles que a inovação vai surgir.
Como você vê o Brasil no cenário do novo circo e do circo contemporâneo?
Não vejo nada. Isto é, como poderia enxergar já que nenhum grupo brasileiro interessante se produziu na França? O Brasil simplesmente não existe no cenário do circo contemporâneo. Perdão, conheço artistas de circo fantásticos e muito contemporâneos no Ceará, olhei vídeos de uma companhia brasileira “Nós no Bambu”, que trabalhou com meu amigo Roberto Magros, e que alcançou um patamar de exportação. Sei que em quase todas as capitais do Brasil, certo número de pessoas estão de fato dedicando sua vida à invenção de um novo circo. Um monte de pessoas, isoladas, pouco reconhecidas, longe de toda fonte de inovação, porém ligadas pela internet a um mundo do qual se sentem injustamente afastadas.
O debate brasileiro entre o circo eterno ou tradicional e os novos artistas que seriam mais bailarinos que circenses, não é nada novo para mim. A França tem seu jeito, digamos revolucionário, de gerar e concluir conflitos. A ruptura em si, é no meu país um modo de ser e de andar. Foi através de um conflito que o novo circo se impôs. O ministério francês conseguiu escapar da briga e não teve que separar o circo em tradicional e novo. O ministério italiano acabou de criar uma linha orçamentária para o novo circo. Não há solução geral, mas deve ter pelo menos esta evidência que nenhum progresso pode sair da conversa entre pessoas cujas metas estão obviamente diferentes: as que lutam pelo reconhecimento da fera como “artista” e que não entende nenhum argumento ecológico, e as que veem o circo como uma arte qualquer e querem as mesmas mordomias ou as mesmas escassezes que as outras artes.
Um circo brasileiro é capaz de competir mundialmente, capaz de ser reconhecido enquanto tal, capaz de certa autonomia artística. Gostaria que houvesse um núcleo forte, cearense, paulista, ou rondoniense que apostasse francamente na arte do circo. O circo é uma arte muito moderna e contemporânea por três motivos: o circo liga o corpo com a alma, ele oferece a qualquer um pelo menos um lugar de excelência que propicia o gosto do risco. Mas enquanto arte, ela também tem o poder de representar o mundo, de abordar questões difíceis, de abrir caminhos e de proporcionar mil efeitos estéticos e não somente risada, também a vertigem e o fascínio.
Como e porque surgiu a ideia de criar as Circonferências? Como ocorre o processo de criação de cada Circonferência?
Partiu do encontro de duas coisas óbvias. De um lado o artista que sabe mais ou menos o que está fazendo. Do outro, o espectador que goza e interpreta mais ou menos o que assistiu. A necessidade de ajudar o público a entender as inovações incompreensíveis de cada artista, e sobretudo o artista poder dizer o que é arte ou não, o que é circo ou não. A necessidade que eu sentia nos meus cursos, era os artistas não se darem conta de suas responsabilidades e histórias.
O que faço é dividir ideias filosóficas, concretas e políticas, isso pode ser através de um fio de12 milímetros ou em um mastro de 6 metros. A criação de cada Circonferência inicia na escolha de um artista da modalidade, escrevo o texto das circonferências assim como a encenação de cada uma delas. A maneira de escrever depende totalmente da personalidade do meu parceiro, não ha regra geral. Por exemplo, com Marion Collé, minha parceira do arame, fizemos uma pesquisa prévia e conversamos longamente com uns 40 aramistas. Mas o método comum é o que chamo de diálogo socrático, ou seja, é através do diálogo e de perguntas ingênuas que aos poucos surgem um questionamento mais profundo.
A proposta das Circonferences é trabalhar não só tecnicamente, mas principalmente o aspecto simbólico e metafórico dos aparelhos e técnicas circenses. Considerando isso, quais critérios para seleção do elenco – além da expertise técnica, o que mais é avaliado?
O princípio é a escolha do meu parceiro, que será co-autor, o
co-diretor da circonferência. Um só critério objetivo: que
meu parceiro não tenha mais que 40 anos.
A razão é que eu simplesmente não acredito na força dos
anciões. Não que eles não tenham nada mais a dizer. Mas
acredito que novos parceiros tenham novas coisas a dizer
desprendendo de experiências passadas.
Meus parceiros têm entre 25 e 35 anos: eles conhecem sua prática o suficiente para analisá-la e não o suficiente para prescindirem da minha memória. A verdade é que não escolho meus parceiros. Não tem opção, são pessoas que me escolhem. Os outros, os “guest stars”, não há regra geral e sim, tento colocar no mesmo lugar, na mesma aventura dessas pessoas que nunca se teriam encontrado sem mim. E que tenham estilos bem diferentes. Além de serem inteligentes, dedicados, virtuosos e generosos, óbvio!


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