Desconstrução e ampliação do que é considerado perfeição e virtuosismo no circo contemporâneo
Seres humanos são, por definição, inerentemente imperfeitos. E é essa imperfeição propriamente dita que nos torna lindamente únicos.
Em sua essência purista, o circo trabalha e lida tradicionalmente com a perfeição, o risco controlado e o virtuosismo técnico como elementos básicos do entretenimento. O “impossível” se torna possível por pessoas comuns que fazem o “extraordinário” acontecer. É isso que faz o circo “circo” para mim, e é algo que abraço com força quando crio um novo espetáculo.
No entanto, como diretor, estou interessado em destacar as muitas complexidades da condição humana – nossas imperfeiçoes físicas, emocionais e sociais, nossas falhas e vulnerabilidades – que contrastam nitidamente com nosso desejo infinito de adquirir os conceitos elusivos de normalidade, sucesso e perfeição.
O circo contemporâneo está explodindo em escala global e todos procuram novas formas de desenvolver novas técnicas e aparelhos, histórias e personagens. Tudo parece válido e aberto à exploração, e meu circo novo deseja se envolver com a plateia atual em níveis mais modernos que vão além do mero virtuosismo.
Sim, quer divertir, mas existe também o desejo de refletir ou oferecer uma alternativa as questões contemporâneas – sociais, políticas e pessoais. Há vários estilos e movimentos emergindo no circo contemporâneo… da suspensão poética e onírica da realidade ao trabalho narrativo baseado em temas mais áridos e ao trabalho não narrativo de pura técnica sem o brilho. Todos eles válidos e praticáveis, assim como o gênero muito respeitável do circo tradicional.
Não importa quão surpreendente, impressionante e agradável o virtuosismo técnico ou a perfeição física possa ser, há ocasiões em que parece excessivo, vazio e sem emoção. Nós, no papel da plateia “comum”, podemos ficar entusiasmados, abismados, inspirados e surpreendidos, mas raramente nos conectamos de forma emocional com o artista, nem remotamente nos conscientizamos da real dificuldade que a técnica exige para parecer impecável ou, de fato, fácil demais. Mas, no momento em que alguém realmente parece cair ou falhar no palco e procura ter êxito em uma segunda tentativa… então de imediato nos sentimos emocionalmente envolvidos.
Se o circo contemporâneo quiser verdadeiramente se conectar mais profundamente ou explorar os receios e desejos universais inerentes a maioria das pessoas, inclusive o risco, fracasso, fragilidade e imperfeição, desejo, esperança, aceitação, então devem ser dados os primeiros passos para reavaliar como usamos e apresentamos a técnica, virtuosismo e perfeição no palco. Porém, não podemos simplesmente jogar fora o virtuosismo técnico e substituí-lo pela falha, pois sem ele perdemos a própria essência do circo.
Ao contrário, precisamos ser capazes de reforçar a técnica circense como linguagem comum do gênero e começar a repensar como poderemos desconstruí-la, reformulá-la e atribuir a ela valores diferentes para que o circo contemporâneo continue a evoluir.
Toda técnica circense possui um conjunto oculto de regras e convenções associado a cada disciplina ou aparelho. É importante começar a explorar e reavaliar essa área muitas vezes ignorada, na medida em que oferece uma fonte inesgotável de novas ideias. Por exemplo, o mastro chinês é convencionalmente preso ao piso, mas durante o espetáculo atual da Organización Efímera, “Fecha de Caducidad” (“Data de Validade”, em português), optamos por fixar o mastro chinês no topo de uma mesa reforçada. A mesa nos permite usar um novo espaço abaixo do mastro, que normalmente não existiria, propiciando assim tanto ao artista como a plateia uma nova perspectiva e experiência do mesmo aparelho e técnica.
A maneira que escolhemos desconstruir e apresentar a técnica no palco reflete a escolha daquilo que desejamos dizer e como desejamos dizer visualmente. Um homem de terno realizando uma série contínua de saltos para trás no mesmo lugar até finalmente falhar poderia ser a representação da vida com uma rotina de trabalho desagradável. Ou talvez o uso do movimento em câmera lenta para acentuar o momento entre uma pergunta que está sendo feita e a resposta que é dada nos propicia o espaço para abstrair e enfatizar o conflito emocional da personagem. Como criadores temos a capacidade de usar a fisicalidade e a técnica sob uma luz mais informada.
Graças a minha formação na dança e no teatro físico, minhas obras tendem a abordar o circo em combinação com conceitos comumente usados nesses dois gêneros, tais como gerar material a partir de exercícios com tarefas predeterminadas, trabalhar com personagem e intenção, expor o fracasso, enfatizar o risco, a abstração do tempo, o uso do subtexto físico, a evolução da cenografia, o uso da música como subtexto emocional ao uso de elementos coreográficos como, por exemplo, ritmo, dinâmica, forma e restrição.
Durante um processo de criação ou workshop, compartilho muitas dessas ferramentas de elaboração criativa, assim como algumas formas não convencionais de abordar, desconstruir e destacar o uso da técnica circense para criar conteúdo com impacto e significado, e ofereço algumas amostras de minha metodologia a seguir.
O uso de restrições físicas é uma das mais importantes ferramentas de criação a que recorro. Dependendo do que desejo expressar, procuro desenvolver tarefas que contenham restrições físicas ou espaciais. Isso permite ao artista se concentrar na solução de um novo problema, em vez de fazer as mesmas escolhas informadas. Permite que avancemos além de blocos criados a partir de decisões puramente técnicas e proporciona ao artista meios de criar material novo.
O uso de cenografia funcional ou desenho transformativo está se tornando cada vez mais recorrente no circo. Em “Fecha de Caducidad”, construímos uma parede de 4 x 4 m para acompanhar os elementos circenses. É um meio eficiente para transformar o espaço cenográfico durante o espetáculo, criando locais distintos, assim como uma metáfora visual para reforçar ideias relacionadas com barreiras físicas e sociais, isolamento e solidão. Também serve como metáfora física de algo sólido que acabará por ruir, atingindo sua data de validade.
Em conclusão, este artigo é apenas um lampejo de meus pensamentos sobre como o circo contemporâneo tende a desconstrução tanto do virtuosismo como da perfeição da técnica e aparelhos circenses pré-existentes. O circo contemporâneo pode efetivamente abordar questões da vida real, tais como pobreza, desigualdade social ou temas como divórcio ou violência doméstica, imigração ou morte, e ainda ser emocionante e divertido para as massas?
Acho que esse processo já começou.
O circo lindamente imperfeito vem aí.
Rob Tannion
Diretor artístico da Organización Efímera
Human beings are by default, inherently imperfect. And it is this very imperfection, which makes us beautifully unique.
In its purist essence, circus has traditionally worked with and used perfection, controlled risk and technical virtuosity as core elements for entertainment. The “impossible” is made possible by ordinary people making the “extraordinary” happen. This is what makes circus “circus” for me, and is something that I strongly embrace when devising a new show.
However as a director, I am interested in highlighting the very many complexities of the human condition – our physical, emotional and social imperfections, our failures and our vulnerabilities – starkly contrasted against our endless desire to acquire the elusive concepts of normality, success and perfection.
Contemporary circus is exploding on a global level and everyone is looking for new ways of developing new techniques and apparatus, story and character. Everything seems valid and open for exploration, and my new circus wants to engage with its existing audience on newer levels beyond just virtuosity. Yes they want to entertain, but there is also a desire to either reflect or offer an alternative to contemporary issues – social, political and personal. There are various styles and movements of contemporary circus emerging…. from the poetic and dreamlike suspension of reality, to the grittier theme based narrative works, to the pure technique non-narrative works without the glitter. All of which are valid and have a place, as still does the very respectable genre traditional circus.
However amazing, impressive and entertaining technical virtuosity or physical perfection may be, there are times when it feels excessive, vacuous, and un-emotive. We as the “ordinary” audience, can be thrilled, wowed, inspired and amazed, but rarely are we emotionally connected to the artist, nor remotely aware of the real difficulty of what the technique requires if it appears fl awless or indeed too easy. But, the moment somebody really appears to fall or fail onstage, and attempts to succeed a second time…. then we are immediately emotionally engaged.
If contemporary circus wants to seriously connect beyond to or explore universal fears and desires inherent to most people, including risk, failure, fragility and imperfection, desire, hope, acceptance, then the first steps must be taken in re-evaluating how we use and present technique, virtuosity and perfection onstage. Yet we cannot just simply throw away technical virtuosity and replace it with failure, as without it we will loose the very essence of what is circus. Instead we need to be able to harness circus technique as a common language of the genre, and begin to rethink how we can deconstruct it, reshape it, give it different values so that contemporary circus continues to develop.
Every circus technique has an unspoken set of rules or conventions associated with each discipline or apparatus. It is important that we begin to explore and re-evaluate this often-overlooked area, as it offers an endless pool of new ideas. For example, a Chinese pole is conventionally anchored to the floor, yet during the current show of Organización Efímera, “Fecha de Caducidad”, we chose to use the Chinese pole fixed on top of a reinforced table. The table allows us to use a new space below the pole, which normally would not exist, thus offering both artist and audience a new perspective and experience of the same apparatus and technique.
The way we choose to deconstruct and present technique onstage, thus becomes a choice of what we want to say, and how we want to say it visually. A man in a business suit performing continuos series of back somersaults on the spot until he finally fails could be representative of a life of an unappreciated work routine. Or perhaps using slow motion to heighten the moment between a question being asked and the answer being given, allows us the space to abstract and heighten the emotional conflict of the character.
As creators we have the capacity to use physicality and technique in a more informed light.
Due to a background in dance and physical theatre, my works tend to approach circus combined with concepts commonly used in both of these genres, such as generating material from task devised exercises, working with character and intention, exposing failure, heightening risk, the abstraction of time, the use of physical subtext, the evolution of scenography, the use of music as emotional subtext to the use of choreographic elements such as rhythm, dynamics, form and restriction.
During a creation or workshop, I share many of these creative devising tools as well as some unconventional ways of approaching, deconstructing and highlighting the use of circus technique to create content with impact and meaning, and I offer some samples of my methodology below.
The use of physical restrictions is one of the most important creative tools I use. Depending upon what
I want to say, I look to develop tasks with contain either spatial and or physical restrictions. This allows the artist concentrate on solving a new problem, rather than making the same informed choices. It allows us to push past blocks created from pure technical decisions and allows artist means to create new material.
The use of functional scenography or transformative design is becoming increasingly used in circus.
In “Fecha de Caducidad”, we built a 4 x 4 m wall to accompany the circus elements. It serves as an efficient mean to transform the scenographic space during the show, creating distinct locations as well as being a visual metaphor to reinforce ideas regarding physical and social barriers, isolation and loneliness.
It also acts as a physical metaphor for something solid which would eventually fall apart, reaching its expiry date.
In conclusion, this article is just a small snapshot of my thoughts on how contemporary circus is trending towards the deconstruction of both virtuosity and perfection of pre existing circus technique and apparatus. Can contemporary circus really address real life concerns such as poverty, social inequality or themes such as divorce or domestic violence, immigration or death, and still be thrilling and entertaining to the masses?
I believe that it has already begun.
Beautifully imperfect circus is coming to town.
Rob Tannion
Artistic director of Organización Efímera